sexta-feira, 30 de junho de 2017

Temer tem razão: Brasil não está em crise econômica. Artigo de Jasson de Oliveira Andrade




Temer diz que o Brasil não está em crise. Ele tem razão? Segundo Mônica Bergamo, sim. A jornalista publicou em sua Coluna (Folha, 24/6): “COZINHA DO PALÁCIO” – O governo irá às compras para abastecer o gabinete de Michel Temer de alimentos e de flores (sic). Duas licitações abertas há alguns dias preveem, juntas, gastos de quase R$ 480 mil. MESA COMPLETA – No pregão de registro de preços de comida, a Presidência estima gastar R$ 137 mil em itens como café, chá, leite, achocolatado, geleias, biscoitos doces e salgados, refrigerantes e sucos integrais. O edital lista, por exemplo, o fornecimento de 5 kg de figo seco (R$ 329 no total), 5.000 barrinhas de cereal (R$3.500 no total) e 39 mil garrafas de 1,5 l de água (R$ 50.310 no total). PERFUME – Já as “flores nobres, tropicais e de campo” serão usadas em eventos com a presença do presidente, de ministros e de autoridades estrangeiras, além de arranjos no gabinete pessoal, nas residências oficiais e nas representações regionais. Serão 1.173 arranjos, de flores como orquídeas, rosas e lírios. EM VIDA – O valor total da contratação, de R$ 341 mil, inclui também serviços de manutenção das plantas. A presidência vai orçar ainda 32 coroas fúnebres, para o caso de “falecimentos de autoridades”. Pelo que se viu nessas revelações de Mônica Bergamo, a COZINHA DO PALÁCIO não está em crise econômica! E o Brasil? Aí é outra história...

Na semana que passou, dois acontecimentos se destacaram: A viagem de Temer ao Exterior (Rússia e Noruega) e o arquivamento da representação que pede a cassação do mandato de Aécio Neves.

Segundo Josias de Souza, a “Viagem de Temer foi um vexame constrangedor”: “Você, que não tem tempo para desperdiçar com bobagens, não deve ter notado. Mas Michel Temer viajou ao exterior. Ele foi à Rússia e à Noruega. Para não passar aperto, se esse assunto aparecer numa rodinha de conversa tudo o que você precisa saber são duas coisas: 1) a viagem foi um vexame; 2) a vergonha foi financiada pelo contribuinte brasileiros – dinheiro meu, seu, nosso. (...) Recepcionado ao pé da escada do avião por personagens subalternos, Temer foi desprezado pela imprensa internacional e PERSEGUIDO POR MANIFESTANTES BARULHENTOS (destaque meu). As poucas parcerias que firmou são meros tratados de intenções. Na Rússia, Temer virou piada ao assinar declaração conjunta que inclui um compromisso de combater a corrupção. (...) Antes de voltar, Temer ouviu verdades da primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg. Madame disse estar preocupada com a Lava Jato. “É preciso fazer uma limpeza”, ela acrescentou. Foi como se dissesse: “Não pense que somos bobos”. Sem obter investimentos novos, Temer ainda perdeu dinheiro. A Noruega cortou metade da contribuição anual de R$ 330 milhões que dava para combater o desmatamento na Amazônia. (...) Instado a dizer quando o desmatamento será contido, o ministro Sarney Filho, do Meio Ambiente, chutou para cima: “Só Deus pode dizer”. Deus existe, você sabe. Mas está claro que Ele desistiu do Brasil e foi cuidar de outras coisas”. Fabiano Maisonnave, enviado especial da FOLHA a Oslo, revelou: “Já no final, com semblante cansado, TEMER COMETEU UMA GAFE (destaque meu) ao dizer que iria visitar o rei da Suécia e o Congresso brasileiro após o encontro com a premiê”. Temer queria dizer rei da Noruega e Congresso norueguês! Cometeu duas gafes... Janio de Freitas, na FOLHA, ironizou: “Quem garante que Michel Temer, na Noruega, só fez um lapso (sic) ao citar encontro com o rei da Suécia? Por que não pensaria estar mesmo na Suécia?”

Sobre o Aécio, Josias de Souza, no texto, “Aécio recebe beijo da morte de aliado de Sarney”, comentou: “Velho e fiel aliado de José Sarney, o maranhense João Alberto, presidente do Conselho de Ética (?!?!) do Senado , arquivou a representação que pede a cassação do mandato de Aécio Neves. O gesto vale como uma espécie de beijo da morte. Com ele, Aécio vira sócio-atleta de um clube no qual Sarney é presidente honorário e Renan Calheiros é diretor vitalício. (...) João Alberto alegou falta de provas. A gravação na qual Aécio aparece combinando o recebimento de R$ 2 milhões do delator Joesley Batista não sensibilizou (sic) o senador. O vídeo que registra o enviado de Aécio [seu primo Fred] recolhendo a grana tampouco impressionou João Alberto. Ao contrário. Para o executor das ordens de Sarney, Aécio é vítima de “uma grande injustiça” . (...) Autor do pedido de cassação, o PSOL recorrerá ao plenário do Conselho de Ética (?!?!). Perda de tempo. Apinhado de investigados, o colegiado não foi estruturado para cassar, mas para proteger os sócios. A principal evidência de que Aécio entrou para o clube não está no fato de o tucano ter ficado parecido com Sarney e Renan. A prova cabal é que Aécio ficou completamente diferente do que ele imaginava ser. (...) Hoje, o ex-presidenciável tucano responde a um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove inquéritos no Supremo Tribunal Federal. Por ora, só o PSDB parece não enxergar que a plumagem do tucano Aécio está diferente”. Aécio: De elogiado a bandido, como escrevi!

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A divisão no PSDB. Artigo de Jasson de Oliveira Andrade


Romper ou não romper com o governo Temer. Esse é o dilema do PSDB. Uma ala, a mais velha, apoia. Já os mais novos, são favoráveis ao rompimento. 

Esse dilema causou a desfiliação do partido do jurista Miguel Reale Júnior. Em entrevista ao jornalista Venceslau Borlina Filho, da FOLHA, ele desabafou: “O jurista Miguel Reale Jr., ex- ministro da Justiça no governo FHC, pediu desfiliação do PSDB, após a decisão do partido nesta segunda (12/6) de permanecer no governo Michel Temer, mesmo diante da crise eclodida com a delação da JBS. (...) Miguel Reale Junior foi um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Estava filiado ao partido desde 1990, após participar ativamente da campanha de Ulysses Guimarães à Presidência, em 1989. “Eles [lideranças do PSDB] não avaliaram que simpatizantes e filiados do partido se opõem a essa decisão [de ficar no governo]. O PSDB não atendeu as suas bases. O eleitorado do PSDB tem a ética e a luta contra a corrupção (sic) como focos”, disse ele. (...) Reale Junior suscitou nomes como Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso na luta pela ética, mas disse que o partido agora ignora OS FATOS GRAVES (destaque meu) revelados pela delação dos empresários Wesley e Joesley Batista no Palácio do Jaburu, sede da Vice-Presidência. Nela, o peemedebista é suspeito de dar anuência a atos de corrupção no governo. (...) “Com essa medida, o PSDB perde consistência, ética e eleitorado. Perde o discurso”, afirmou o jurista. “O PSDB é um muro (sic) que vai acabar se tornando seu túmulo”, completou ele, que já foi candidato a deputado federal e atuou como professor. (...) Segundo o jurista, a permanência do PSDB no governo Temer nada mais é do que um acordo que visa evitar mais desgastes ao senador e presidente AFASTADO (destaque meu) do partido Aécio Neves (MG), ameaçado de ser preso e de ter o mandato cassado no Senado. (...) “Essa história de que “está se olhando para o Brasil, para a necessidade das reformas, É SÓ UMA DESCULPA (destaque meu)”. Já FHC, primeiro apoiou a decisão do partido em apoio a Temer, agora pede a saída do PSDB do governo. Ele declarou “Preferia atravessar a pinguela [como ele designa o governo Temer], mas, se ela continuar quebrando, será melhor atravessar o rio a nado”. 

Janio de Freitas, em artigo à FOLHA, fala sobre “a “decepção” de que se queixam ex-admiradores de Aécio Neves”. A situação dele está tão ruim, que alguns aecistas, constrangidos, reconhecem: AÉCIO É BANDIDO, embora, agora que ele está sujo, por motivo óbvio, NÃO SEJA DE ESTIMAÇÃO. O vereador de Mogi Guaçu. Fábio Luduvirge Fileti, O Fabinho (PSDB), ao justificar a sua anuência à Moção do vereador Guilherme da Farmácia de Repúdio ao senador Aécio Neves, afirmou: “Eu não compactuo COM MAU CARÁTER, COM PESSOAS QUE PERDERAM TOTALMENTE A CREDIIBILIDADE. AÉCIO NEVES ENVERGONHA O PSDB (destaque meu)”. Apesar dessa situação, Aécio recebeu aplausos em reunião dos tucanos, como revelou a COLUNA DO ESTADÃO (13/6). Sem comentário!

O senador Tasso Jereissati, presidente interino do PSDB, substituindo Aécio, concedeu uma entrevista à Folha. Ao ser perguntado “o sr. continua defendendo que o PSDB saia (sic) do governo?”, respondeu: “Sim, mas isso não é pedir “Fora, Temer”, não é pedir impeachment. Eu acho difícil que o presidente saia” Ao responder outra pergunta, esta agora sobre o tucano mineiro (Muitos tucanos dizem que Aécio foi vítima de uma armadilha. O sr. concorda?), Jereissati afirmou: “Uma pegadinha, com certeza. Agora, isso não o inocenta totalmente (sic), porque foi montada uma armadilha e ELE CAIU (destaque meu)”. O senador encerrou assim sua entrevista: “Ficar no governo em si é detalhe (?). O importante é que precisamos fazer uma autocrítica profunda, reconhecer que a população não aguenta mais o que está aqui”. Se ele reconhece isso, por que o partido que preside não rompe com o governo Temer? Não é uma incoerência?

O jornalista Josias de Souza, no seu Blog, escreveu: “Vaivém de FHC [cada hora diz uma coisa] mostra que o tucanato está zonzo”.

Capa da revista ÉPOCA, da Globo, desta semana: Entrevista exclusiva com Joesley Batista: “TEMER É O CHEFE DA QUADRILHA MAIS PERIGOSA DO BRASIL”. Esta entrevista ainda vai dar o que falar! A ver...

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Brasil Motivacional 2018



Planeta: Terra

País: Brasil

Cidade: São Paulo

Ano: 2018

Um país em crise. Pessoas vendendo o almoço pra comprar um cafezinho. Empresas demitindo ou fechando as portas. Boatos de canibalismo nas grandes cidades.
Nesse cenário, é fácil imaginar que todos estejam perdendo. Nada mais longe da realidade. Embora às vezes possa ser possível uma espécie de situação "ganha-ganha" ou se imagine que nessa crise o jogo esteja "perde-perde", o fato é que o jogo é do tipo "ganha-perde". Pouquíssimos ganhando e a esmagadora maioria perdendo.

Mas vamos deixar o sentido figurado um pouco de lado.

O Gestor entra no escritório. Tem algo importante a comunicar aos Colaboradores.

- Peço a atenção de todos!
- Diga, por favor!, responde Ataliba, famoso puxa-saco da firma. Ou melhor. Da Companhia.
- Como vocês sabem, houve uma reunião entre a Diretoria e os Acionistas, e foi decidido que haverá outro programa motivacional.
- Ih, outro!, resmunga Natal.
- Puxa, que legal!, diz Cauã, um dos Estagiários.
- Estamos em tempos de crise. Esta filial não atingiu os resultados estabelecidos para este ano fiscal. Aparentemente nossos Colaboradores não agiram proativamente com determinação e foco em resultados.
- Eu li no jornal de Economia que isso foi devido a investimentos errados no mercado financeiro, principalmente grandes perdas com o hedge.
- Deixe suas opiniões para a reunião semestral, Abílio!
- Como vai ser esse programa motivacional?
- Ótima pergunta, Ataliba.
Ataliba estufa o peito, todo orgulhoso.
- Vocês sabem que o alcance da Companhia se dá em vários setores da economia nacional.
- Sabemos.
- Uma das ramificações, digo, que representa a diversificação em nossa cesta de investimentos é o setor da segurança pública.
- Você quer dizer: cadeias privadas.
- Exato. Temos um programa pioneiro de reabilitação e sociabilização dos presos.
- E daí?
- Nós selecionamos um dos internos da Casa de Ressociabilização Cidadã de São Judas do Vale. O senhor Edson Catamatta.
- Catamatta... Catamatta... Esse nome não me é estranho!, diz Valdeir.
- LEMBREI!!! - responde Odair - É o "Tacanha"! Aquele psicopata que mato...
- O SENHOR EDSON - interrompe o Gestor - está participando do programa de reabilitação e ressociabilização, patrocinado pela Companhia, e foi selecionado para participar de nosso programa motivacional, num papel muito importante. Seus talentos serão muito úteis.
- Como assim?, pergunta um.
- Vocês nos fazem trabalhar 12 horas por dia e acham que essa charlatinice motivacional vai resolver alguma coisa?, reclama outro.
- Pois bem. A participação no programa motivacional renderá pontos dentro da Companhia. Quem quiser progredir aqui dentro deverá pensar seriamente em participar. 
- Continue.
- Esta filial deficitária foi aquela que desequilibrou os resultados globais da Companhia, prejudicando o faturamento projetado.
- Coisa de 50 mil reais apenas.
- ISTO, SENHOR ANÌBAL, é uma Companhia que visa o lucro, não uma casa de caridade. Perder dinheiro é heresia.
- Sim, senhor.
- Afinal, interrompe Ataliba, sempre que a Companhia defende os interesses da Companhia e dos Acionistas, ela está automaticamente defendendo também os interesses dos Colaboradores. Defender a Companhia é defender os Colaboradores. Quando a Companhia cresce, todos nós crescemos.
- Muito bem, Ataliba. Assim, esta filial foi escolhida para servir de exemplo às demais. É aqui que entra o programa motivacional.
- Vai ter coaching e coisa e tal?
- O senhor Tacanha, ou melhor, o senhor Edson será nosso coaching convidado.
- O QUÊ??
- O que sabe ele?
- Do que consiste esse programa, afinal?

Uma semana depois, todos os Colaboradores compareceram bem cedo ao Escritório, pois teria início o programa motivacional.

O Tacanha...ops, o senhor Edson Catamatta botaria em prática seus conhecimentos aprendidos no período de encarceramento.

Cada funcionário foi avaliado.

E cada um teria suas faltas e deficiências profissionais destacados pelo RH.

E essas faltas e deficiências seriam tatuadas na testa de cada Colaborador, pelo senhor Edson. Que aprendeu a tatuar na cadeia, usando pregos, tinta de caneta e giz de cera.

Assim, Aníbal, da Expedição, que tinha o costume de sempre entrar atrasado, receberia em sua testa a inscrição "Atrasildo e Vassilão".

O problema é que Tacanha, ou melhor, o senhor Edson, era semi-analfabeto.

A tatuagem do Ataliba ficou "Sou Pucha Çaco e Vassilão".

Cada sessão de tatuagem com cada Colaborador foi filmada e as filmagens todas foram editadas e compiladas em um DVD, que seria enviado a cada filial, e o filme projetado em uma exibição coletiva em cada uma das filiais.

Para coagir, ou melhor dizendo, motivacionar cada Colaborador a dar o melhor se si para a Companhia.

Os Colaboradores tiveram que assinar um contrato cedendo os direitos de imagem à Companhia, que poderia comercializar estas imagens da maneira que melhor lhe interessasse.

Pois cinquenta mil reais não é dinheiro de se jogar fora.

Ainda mais nessa crise braba.

FIM


.

Os "Tatuadores"




De uma hora pra outra, naquela cidade, começaram a aparecer pessoas com tôscas tatuagens em suas testas. Vídeos foram se disseminando. 
Nesses vídeos, as sessões de tatuagens. 
Dois indivíduos mascarados conversavam com suas vítimas:
- E aí, qual vai ser a frase?
- "Sou puta"!
- Então vai ser essa mesmo.
Noutra gravação:
- Escreve o quê aí?
- "Ladrão"!
- OK.

Em comum, as vítimas dos tatuadores tinham o fato de serem párias da sociedade: ladrõezinhos pé-de-chinelo, prostitutas. Marcados para sempre, para que não houvesse dúvidas sobre seu lugar na sociedade.

- Olha aí, Clarice!
- O quê, Armando?
- Tá aqui no jornal. Os "tatuadores" marcaram mais um. Adoro eles. Fazem o que a policia tinha que fazer. Bandido tem que se ferrar mesmo.
- Ah, não sei não, Mando...
- Como assim, Clá?
- Outro dia saiu que um dos tatuados nem era bandido.
- Se foi tatuado, boa coisa não era.
- A moto era dele mesmo!
- Sei não. Se tatuaram nele, alguma coisa ele devia. Se erraram no lance da moto, acertaram de outra forma. Esses lixos sempre têm alguma coisa pra esconder.
- Credo, Mando...
- Ihh, virou petralha, é?
- Pára, Mando!
- O fato é que o cidadão de bem precisa de mais gente como esses tatuadores! A bandidagem tá solta!
- Não gosto nada desses caras, desses "tatuadores". Quem serão eles, por baixo daquelas máscaras?
- Heróis modestos, isso sim!

( ... )

DING-DONG!

Clarice não atende a porta. Foi ao supermercado.
- Pois não?
- É o senhor Armando?
- Sou eu. Quem é?
- Entrega.

Ele abre a porta.

- Entrega de quem?

Um pano com clorofórmio responde à pergunta de Armando.

Ele acorda noutro lugar, amarrado a uma cadeira.

- Q-q-quem? O quê?

- E aí, Armandão?
- Armando, tudo certo aí, mano?
- Quem são vocês?
- Somos celebridades.
- É. Famosos.

Armando olha em volta. Parece uma espécie de porão de filme americano.

De repente, ele gela.

Ele reconhece alguns instrumentos dispostos numa bancada.

Instrumentos de fazer tatuagem.

- O que vocês querem comigo?
- Você foi sorteado.
- É. Sorteado.
- E premiado.
- P-premiado? Como assim?
- Vai ganhar uma tatuagem grátis.
- Uma não. Várias.
- T-tatuagem? P-p-por quê?

Um dos dois anfitriões começa a explicar:

- Nós prestamos atenção em você. Descobrimos seu "hobby".
- "Hobby"?
- É.
- Meu times de botão?
- HAHAHAHAHAHA! Você é um piadista, Armando.
- Meu hobby são times de botão.
- Que você usa como fachada para se aproximar de jovens, não?
- Q-q-quê?
- Sabemos de tudo, Armando.
- É. Aqueles vídeos com as...como vocês as chamam?
- As "novinhas". E os "novinhos" também né Armando?
- Mas, c-c-como?
- Sua mulher sabe, Armando?
- Desse seu hobby?
- Deixem a Clarice fora disso.
- Ela é uma boa mulher e pessoa, Armando. Ao contrário de você.
- Mas...mas...mas...
- Você vai sumir da vida dela, Armando.
- Mas...mas...

Clarice estranha o sumiço de Armando. Se saiu pra comprar cigarros podia ao menos ter deixado um recado. O celular dele estava desligado.

Clarice decide então olhar os e-mails.

Um dos emails tem Armando como remetente. Chegara à conta de Clarice há uns 5 minutos. Neste email há um anexo. Um vídeo.

- E aí, parceiro? Qual será a frase?
- "Sou pedófilo"!
- Fala mais alto!
- Eu também não escutei.
- "Sou pedófilo"!
- Que mais?
- "Papa anjo"!
- Que mais?
- "Molestador de crianças"!
- Ih, esse vai dar trabalho, parça!
- Mãos à obra então, meu camarada.

Só que os "tatuadores" se enganaram. Erraram de pessoa. Era outro Armando quem eles procuravam.

Fazer o quê?

Todo mundo comete erros.

FIM


.

[ Parte 9 ] Versão farsesca da morte de Celso Daniel vira livro, cometido por jornalista ( sic ) da Veja

O livro do jornalista Silvio Navarro não foi editado para acabar com as dúvidas industrializadas sobre a morte do prefeito Celso Daniel. Veio para despejar mais gasolina na fogueira de versões fantasiosas que contradizem a força-tarefa da Polícia Civil de São Paulo (e também os enviados da Polícia Federal do então governo Fernando Henrique Cardoso) que investigou o crime em três diferentes fases e concluiu que tudo não passou de incidente numa Região Metropolitana de São Paulo empesteada de quadrilhas especializadas em sequestros naquele janeiro de 2002. 

A morte do médico-legista Carlos Delmonte Printes expressa com clareza o sentido de espetacularização e consequente vinculação do caso Celso Daniel ao Partido dos Trabalhadores. Navarro, também editor do site UOL, dedicou três páginas de “Celso Daniel – Política, corrupção e morte no coração do PT” ao homem encontrado morto em seu escritório. Dá completa ênfase à criminalização política do prefeito de Santo André, embora seja obrigado a se render às investigações. Tudo discretamente, claro. O que importava mesmo era passar o conceito de crime programado por razões político-administrativas. 

A reprodução de todos os parágrafos do livro de Silvio Navarro sobre a morte do legista é importantíssima. É indispensável manter a autenticidade da obra. 

 A morte do legista Carlos Delmonte Printes contribuiria decisivamente para a aura de mistério que paira sobre o cadáver do petista. O médico foi encontrado estatelado, na tarde de uma quarta-feira, dia 12 de outubro de 2005, em seu escritório. Tinha 55 anos. Delmonte, como era conhecido, assinou o laudo que aponta evidências de tortura no corpo de Celso Daniel. As marcas de suplício e agonia seriam usadas pela promotoria para sustentar que o bando que protagonizou o sequestro tentara tirar do prefeito alguma informação antes de executá-lo. Uma das hipóteses aventadas pelos promotores era a de que Celso Daniel detivesse senhas e papeis relativos à contabilidade de offhores montados pelo Partido dos Trabalhadores para juntar ilícitos a fim de custear a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República em 2002. Para a Polícia, porém, nunca houve tortura. 

Segue a narrativa de Silvio Navarro 

 Com histórico de ter assinado 20 mil autópsias ao longo de 21 anos de carreira, Delmonte afirmou que Celso Daniel tinha uma lesão próxima ao ouvido esquerdo; sofrera um forte golpe na cabeça, provavelmente causado pelo cabo de uma pistola, uma coronhada, na linguagem policial; apresentava uma marca de cano quente nas costas e fora atingido por estilhaços de balas disparadas contra o chão, perto de seu corpo, com o objetivo de assustá-lo. Segundo o legista, isso se chama tortura. 

Mais narrativa de Silvio Navarro 

 O prefeito levou um tiro no rosto, o que provocou a destruição de toda a arcada dentária inferior, e só depois foi alvejado em outras partes, o que descontrói o roteiro narrado pelo menor L. S., que assumira a autoria do assassinato. No exame necroscópico, datado de 24 de fevereiro de 2002, Delmonte registrou que o prefeito apresentava “face de terror e espasmo cadavérico em mãos” – a morte foi precedida de agonia de minutos, escreveu.

Novos trechos de Silvio Navarro 

 Quando encontrado sem vida, em seu escritório, no bairro da Vila Mariana, na Zona Sul, o legista estava caído ao lado deum sofá que servia de cama nas ocasiões em que varava a noite trabalhando. Como não havia marcas sugerindo que o local fora invadido, nem sinais de violência física contra ele, a principal tese, inicialmente, consistiu em que sofrera um infarto fulminante. O único dado foi notado na necropsia: o índice de glicemia muito baixo, o que, isoladamente, pouco significava àquela altura. O primeiro laudo do Instituto Médico-Legal, divulgado no dia 22 de dezembro de 2005, informou que não era possível concluir se Delmonte se envenenara ou fora envenenado, e que ele morrera sufocado por uma secreção formada na garganta após a ingestão de medicamentos. Em março de 2006, o órgão produziria um parecer complementar, segundo o qual o legista não resistiu porque ingerira três medicamentos ao mesmo tempo: o sedativo Dormonid, o beta bloqueador propanol e lidocaína. Os investigadores argumentaram que, como era judeu, o legista poderia ter tentado disfarçar o suicídio – para não ser sepultado como suicida – com um coquetel de remédios que fizesse parecer se tratar de morte natural.


Mais narrativa de Silvio Navarro 

 “Ele não tinha necessidade de tomar aqueles medicamentos”. Sendo médico, sabia dos riscos de ingeri-los simultaneamente – afirmou na época o diretor do Centro de Pesquisas do IML, Ricardo Kirche Cristofi. Durante a apresentação do laudo, o delegado José Antonio Nascimento, do DHPP, disse ter interrogado familiares do legista, segundo os quais Delmonte era avesso a remédios. A polícia concluiu a investigação e apontou suicídio. Segundo os delegados, Delmonte estava deprimido pelo rompimento com a mulher, Luciana Plumari, por quem era apaixonado. Num telefonema à sogra, disse não saber como reinventar sua vida sem ela. 

Mais do livro de Silvio Navarro  

 O relatório sobre a morte tem 763 páginas, distribuídas em quatro grandes volumes. A polícia ouviu 26 pessoas e analisou 230 páginas com as transcrições dos telefonemas do legista. O último a conversar com ele foi o filho Guilherme Capelozzi Delmonte, de seu primeiro casamento, com Vera Luiza Capelozzi. De acordo com Guilherme, na ocasião o pai lhe informara que buscaria um pedreiro na região de Embu-Guaçu. Para a Polícia, uma das provas de que se tratara de suicídio foi uma transferência bancária, efetuada pelo legista dois dias antes de morrer, para a ex-mulher, no valor de R$ 100 mil. Quando ela notou o dinheiro n conta e questionou Delmonte a respeito, ele disse que o montante deveria ser usado para custear o tratamento médico de um dos filhos. O legista era pai também de Samuel. 

Completando a narrativa

Os policiais informaram que Delmonte deixara duas cartas de despedida. Numa endereçada ao filho Guilherme e achada no próprio escritório na Vila Mariana, diz que não queria velório e que desejava ter o corpo cremado. Na outra, entregue a Luciana, que a repassou aos policiais, pede também pela cremação e manifesta vontade de que suas cinzas fossem depositadas ao lado do túmulo do pai dela, o bicheiro Francisco Plumari Júnior, conhecido como Chico Ronda. Fundador da escola de samba Império da Casa Verde, ele fora fuzilado dois anos antes numa disputa de contraventores pelo mercado clandestino de máquinas caça-níqueis. 

A verdade muito tempo antes 

Onze anos antes de Silvio Navarro lançar o livro sobre o assassinato do prefeito Celso Daniel publiquei na edição de novembro de 2005 da revista LivreMercado, da qual era Diretor de Redação, um texto denso sobre a morte do médico-legista. Na medida do possível vou procurar reproduzir apenas os trechos principais. O título “Espetáculo continua com legista morte e acareação”, diz bem a característica daquela publicação: 

 (...) Em circunstâncias normais, a morte do perito Carlos Delmonte não evocaria a mais leve dúvida: ele estava rompido com a mulher e resolveu se matar, como atesta uma carta escrita do próprio punho. Mas como Delmonte era peça chave para uma vertente que apura o caso Celso Daniel, virou celebridade mesmo antes de seu corpo ter sido encontrado em seu escritório. A bateria de exames do cadáver do legista que chefiou a equipe do Instituto Médico Legal no laudo de corpo de delito de Celso Daniel descartou preliminarmente a hipótese de morte natural. Foi o suficiente para que se lançassem dúvidas sobre eventual autoria de possível assassinato. Nem mesmo as declarações de familiares de que Delmonte não recebeu qualquer tipo de ameaça nos últimos tempos desmobilizou a ideia fixa de que, por ser a sétima vítima envolvida no caso Celso Daniel, conviria desconfiar. Entre a morte provavelmente por envenenamento de um dos legistas do caso Celso Daniel e a manchete exclusiva do “Estadão” de que a probabilidade de suicídio se robustecia (”Carta de despedida reforça tese de suicídio de legista” — eis a manchete daquele jornal em 21 de outubro), muita água rolou sob a ponte de especulações. O corpo de Delmonte foi encontrado na madrugada de 12 de outubro e o que se firmou no inferno de conjecturas do noticiário sempre espetaculoso foram manchetes e reportagens invariavelmente em forma de lenha na fogueira de suposta relação com o caso Celso Daniel. Traduzindo: os acusados de terem encomendado a morte do prefeito estariam também por trás da sétima vítima.

Mais trechos de LivreMercado 

 Apesar de evidências de que cometeu suicídio, Delmonte virou prato cheio de dúvidas. De pouco adiantou, mesmo depois da reportagem do Estadão, saber-se que ele escreveu uma carta do próprio punho se despedindo da mulher que o abandonara. E muito menos a informação que, um dia antes, telefonara para a ex-sogra e, num tom de desespero, transmitiu-lhe mensagem de adeus. Ao constar dos inquéritos do caso Celso Daniel, Delmonte agregou compulsoriamente a condição de vítima de crime sob encomenda. Por essas e por outras o delegado-titular do DHPP, Armando de Oliveira, presidente dos inquéritos que definiram o caso Celso Daniel como crime comum, preferiu silenciar-se. Mas não faltam entre investigadores da Polícia Civil de São Paulo informações de que o legista corria atrás de 15 minutos de fama quando surgiu em cena ao afirmar que o então prefeito de Santo André foi torturado pelos sequestradores. A posição de Delmonte foi relatada ao Ministério Público de Santo André no final de agosto. Os promotores declararam então que o depoimento de Delmonte dava novos rumos à investigação sobre a morte de Celso Daniel. “O perito deu um passo além de nossa investigação. Nós trabalhávamos com a hipótese de crime de mando. Ele nos mostrou que houve um crime por ódio” — afirmou o promotor de Justiça Roberto Wider.

Mais trechos de LivreMercado 

 Fontes da Polícia Civil observam a atuação de Carlos Delmonte sob outro ângulo. Ele estaria vivendo momentos pessoais complicadíssimos depois da separação da mulher e procurava, de todas as formas, chamar a atenção como compensação que pudesse, quem sabe, recolocá-lo nos braços de quem se confessou, em carta, apaixonadíssimo. O relacionamento que mantinha com a equipe de legistas do Instituto Médico Legal seria tumultuoso. À parte a competência, Delmonte seria agudamente egocêntrico e de difícil trato. O delegado Armando de Oliveira evita imiscuir-se nos bastidores policiais. Só lamenta que a atuação pública do legista morto na madrugada de 12 de outubro, inclusive com participação no programa de Jô Soares, não estivesse sincronizada com o exame necroscópico do corpo de Celso Daniel. O material assinado por Carlos Delmonte e outros três especialistas (Issao Kameyama, Paulo Argarate Vasques e Flávio Cavalcante) não faz qualquer referência à tortura, no sentido mais tarde enfatizado ao MP e à mídia. “Celso Daniel foi assassinado com oito tiros — explica o delegado — mas não há nada no laudo necroscópico que fuja das consequências dos impactos”. Nem nos anexos tão reclamados pelos irmãos de Celso Daniel. Os anexos são, segundo o delegado, a matriz da conceituação de que o assassinato não tem parentesco com tortura.

Mais trechos de LivreMercado 

Em abril de 2006, portanto cinco meses depois, voltei a escrever sobre a morte do legista, sob o título “E o legista Carlos Delmonte cometeu mesmo suicídio?”. Leiam os principais trechos da reportagem-análise: 

 A má notícia para quem especulou sobre a morte do médico-legista Carlos Delmonte, relacionando-a à queima de arquivo de suposta sétima vítima do caso Celso Daniel, foi discretamente tratada pela mídia eletrônica em 17 de março e pela mídia impressa no dia seguinte: um dos profissionais que assinou os termos do laudo necroscópico do corpo de Celso Daniel morreu de morte provocada, não de morte matada como alguns pretendiam fazer crer. Carlos Delmonte cometeu suicídio na madrugada de 12 de outubro do ano passado ao ingerir três medicamentos simultaneamente. O delegado José Antonio Nascimento, do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) e dois legistas apresentaram o laudo durante coletiva à Imprensa. O documento final somou 763 páginas em quatro volumes. Foram ouvidas 26 testemunhas, entre familiares, colegas de trabalho e amigos, e realizados 13 laudos necroscópicos. Segundo a Polícia, dois dias antes de morrer Delmonte transferiu R$ 100 mil para a conta corrente de sua ex-mulher. Também deixou cartas, que tiveram caligrafia confirmada por peritos, informando como deveria ser velado, a quem avisar e o que ele gostaria que fosse feito.

Mais narrativa de LivreMercado 

 Diretor do Centro de Pesquisas do Instituto Médico Legal, Ricardo Cristofi foi incisivo na definição do laudo: “Ele não tinha necessidade de tomar aqueles medicamentos. E sendo médico, sabia dos riscos em ingeri-los simultaneamente”. A revelação oficial de que Carlos Delmonte provocou a própria morte segue rigorosamente nossas informações. Em nenhuma edição esta publicação (e também a newsletter Capital Social Online, que trata do caso Celso Daniel de forma sistemática) caiu na vala comum da mídia sobre a possibilidade de outra versão para a morte, principalmente porque o legista deixou evidências materiais do que pretendia fazer, como carta e telefonemas a familiares. (...) No laudo, os especialistas do IML consideraram que a medicação levou Delmonte à morte. Com o efeito da combinação, ele não teve consciência ou reflexos para reagir ao quadro de pneumonia. Quando o próprio organismo começou a se defender, produzindo catarro, o legista não conseguiu expeli-lo. A Polícia garante que o crime foi premeditado pelo próprio legista. Ele contou ao filho que havia feito exames, inclusive radiografias, com um especialista conhecido da família e, por isso, comprara os remédios que tomou na noite do suicídio. Ao checar as informações, o mesmo médico disse que Carlos Delmonte não havia se consultado com ele.

Mais reportagem de LivreMercado 

 O suicídio de Carlos Delmonte teve relação direta com problemas familiares. A mulher o abandonou e ele sofria com alguns transtornos provocados pelos filhos. A atuação do legista nos últimos tempos de vida não pode ser descartada como propulsora do suicídio. Estranhamente, ele saiu da discrição de quem considerou a morte de Celso Daniel caso típico de tortura convencional e redirecionou em favor da tortura político-administrativa. Deslumbrou-se ao participar do programa de Jô Soares, na TV Globo. Atribuem-se à mudança de avaliação de Carlos Delmonte eventuais interesses de usufruir de supostas benesses de envolvidos direta ou indiretamente no caso Celso Daniel que se alinhem à versão de crime de encomenda. Não há provas materiais nesse sentido, mas a morte de Carlos Delmonte foi exploradíssima ao vincular-se mesmo que subjetivamente, quando não diretamente, a uma rede conspiratória que teria determinado o assassinato do prefeito de Santo André. Os próprios irmãos de Celso Daniel, eficientes na propagação de crime de encomenda, trataram de elevar a temperatura de desconfiança.

Mais narrativa de LivreMercado

O contraste entre a cobertura espalhafatosa do anúncio da morte de Carlos Delmonte e seus desdobramentos e a discretíssima repercussão no mês passado de que o legista cometeu suicídio é mais uma prova de que, de maneira geral, a mídia está perfilada com a teoria de crime de encomenda. Mais que isso: a mídia despreza ou minimiza tudo que se apresenta como provas de que tanto a Polícia Civil quanto a Polícia Federal acertaram em cheio ao concluir inquérito que define a morte de Celso Daniel como crime comum, sem relação alguma com suposto caixa dois na Prefeitura de Santo André. Carlos Delmonte morreu sem concluir o laudo complementar do assassinato de Celso Daniel. Ele estava empenhado então há 50 dias na elaboração de documento solicitado pelos promotores criminais de Santo André. Foi em 16 de agosto do ano passado que Delmonte ouviu dos promotores o pedido para que respondesse a 14 quesitos suplementares do laudo. Delmonte fez naquele dia longo depoimento ao Ministério Público. A CPI dos Bingos, que pareceu tão zelosa ao anúncio de que Carlos Delmonte foi encontrado morto, calou-se no mês passado depois da divulgação do laudo pericial. O Estadão de 14 de outubro do ano passado ouviu vários membros antigovernistas da CPI dos Bingos em Brasília. Não faltaram acusações veladas. O relator Garibaldi Alves disse textualmente: “Agora temos um fato recente para usarmos na acareação” (…) Não podemos ficar calados diante de tantas evidências de que algo muito estranho aconteceu”. A acareação à qual se referiu o senador foi realizada no final daquele mês, entre Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Lula da Silva, e os irmãos João Francisco e Bruno Daniel.

Mais narrativa de LivreMercado

Outro membro da CPI dos Bingos, senador Romeu Tuma, prometeu na mesma reportagem do Estadão que acompanharia as investigações sobre a morte de Carlos Delmonte. Não se tem notícia da participação do ex-policial na elaboração do inquérito final. Na mesma edição de 14 de outubro do ano passado, o Estadão publicou manchete “Morte do perito não foi natural, mostram exames”. (...) No dia 15 de outubro, a politização da morte de Carlos Delmonte estava explicitada na manchete da página A17 do Estadão: “Família de Daniel está com medo e quer proteção especial”. (...) A conversão escancarada de que Carlos Delmonte teria sido vítima de crime de encomenda foi estampada em nova manchete de página do Estadão, agora de 20 de outubro (...) sob o título “Para família, legista foi vítima de alguma coisa muito grave”. (...) Mais de dois meses depois da morte de Carlos Delmonte, os jornais voltaram ao assunto em 21 de dezembro. Trechos da Folha de S. Paulo: “Setenta dias após a morte do médico-legista Carlos Delmonte (…) os peritos do IML (Instituto Médico Legal) não chegaram a nenhuma conclusão sobre a causa mortis. Em seu relatório o IML informou que não foi possível definir se a morte de Printes foi natural ou provocada por um fator externo, como a ingestão de veneno, uma das hipóteses cogitadas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público (…). A dificuldade em definir o motivo determinante da morte do legista provocou discussões entre membros da equipe do IML e aumentou a apreensão de autoridades envolvidas na investigação”. Na edição de 22 de dezembro, no alto da página, a Folha de S. Paulo praticamente antecipava a conclusão anunciada agora em março pela Polícia Civil: “A investigação da Polícia Civil sobre a morte do perito-criminal Carlos Delmonte Printes (…) aponta para a hipótese de suicídio e descarta a possibilidade de morte natural ou homicídio. O delegado José Antonio do Nascimento, do DHPP, descarta também qualquer vínculo entre as mortes de Celso Daniel e do legista. (…) A conclusão de que Printes teria ingerido alguma substância letal metabolizada pelo organismo a ponto de inviabilizar a perícia é uma “dedução lógica”, já que a investigação não aponta outras hipóteses, segundo o delegado”. Antes que o ano passado terminasse, o Estadão de 27 de dezembro voltou ao assunto. Sob o título “MP volta a questionar laudo sobre perito”, a matéria explicitava a posição do promotor de Justiça Maurício Ribeiro Lopes, que investiga a morte do legista Carlos Delmonte. Alguns trechos: “Essa perícia é muito lacunosa, o resultado é insatisfatório”, declarou o promotor, após reunião com o delegado José Antonio do Nascimento. 

13/06/2017

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Viagem da Família Temer em avião da JBS é ilegal. Artigo de Jasson de Oliveira Andrade


Temer mentiu ao desmentir que não havia viajado em avião da JBS para a Bahia. Primeiro afirmou categoricamente que não viajou nesse avião e sim em uma nave da FAB. Joesley Batista o desmentiu. Ele voltou atrás, e disse que viajou sim em avião particular, mas desconhecia de quem era o seu proprietário. Mais uma vez foi desmentido: Joesley recebeu um telefonema do próprio Temer, pedindo flores para Marcela, sua esposa. Esse vai e vem foi uma amnésia do presidente ou ele, como jurista, sabia que a viagem era ilegal? É o que vamos ver a seguir.

Janio de Freitas, em artigo à FOLHA, escreveu: [investigação] requer o caso mais simples da viagem do casal Temer a Comandatuba, Bahia, [em 2011]. O uso de um avião de Joesley Batista foi negado pela assessoria de Temer, que disse haver viajado em avião da FAB. (...) Mentira (sic) que até impressiona mais pelo PRIMARISMO (destaque meu), sem prever o mais óbvio: a verificação na FAB. Então Temer se lembra (sic), ah, sim, era avião particular, mas nunca soube de quem. MENTIRA OUTRA VEZ (destaque meu): o dono delatou o telefonema de Temer para queixar-se de florida (sic) gentileza com sua mulher”.

No artigo, “Caso vença na corte [venceu por 4x3], Temer não terá tempo para abrir champanhe”, publicado na Folha em 8/6, Igor Gielow, comentou: “A mudança da versão de Temer, de uma negativa peremptória para um “não sei de quem era o avião”, fora as emendas no enredo tentadas no modo “conversa com aliados”, é o tipo de coisa que derrubaria político em nações mais civilizadas”. E no Brasil, vai derrubar Temer? A ver...

O jornalista Fernando Brito, no Tijolaço: “Temer se enrola tanto na mentira que tudo vira sórdido”.

O jornal Globo assim descreve o que ocorreu: “Ao entregar à Procuradoria-Geral da República (PGR) registro de diário de bordo da aeronave usada pelo então vice-presidente Michel Temer para viajar com Marcela Temer a Comandatuba, em janeiro de 2011, o empresário Joesley Batista contou aos procuradores ter recebido uma ligação do próprio Temer para perguntar sobre o envio de flores à aeronave e agradecer pelo agrado. (...) A versão de Joesley Batista contradiz (sic) a nova nota divulgada no início da tarde desta terça-feira [6/6] pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, que informa que o “vice-presidente não sabia a quem pertencia a aeronave” usada para deslocamento até o interior da Bahia. Agenda oficial de Temer não registrou viagem a Comandatuba. (...) Em relato à PGR, Joesley contou ter enviado flores para enfeitar a aeronave que seria usada pela família Temer para retornar a São Paulo, O QUE TERIA DEIXADO O ENTÃO VICE-PRESIDENTE COM CIÚMES. (destaque meu). Segundo ele, para evitar o mal estar [ciúmes] com o vice-presidente, o comandante da aeronave teria dito que este era um presente da mãe de Joesley, e não do empresário. (...) O vice-presidente teria, então, telefonado ao empresário para dizer que gostaria de agradecer à matriarca da família pelo agrado. E, em seguida, ligado à mãe de Joesley, Flora Batista”.

O Estadão noticiou: “O Palácio do Planalto tentou minimizar o DESGASTE CAUSADO PELA MUDANÇA DE VERSÕES (destaque meu). No governo, o episódio foi classificado como “UM ERRO” (destaque meu), gerado pela pressa de fornecer uma resposta e, como não havia registro desse voo, a primeira reação foi negar, em nota oficial”.

Será que foi uma amnésia ou ele sabia que o fato é ilegal? É o que constata o Prof. Rubens Glezer, em texto ao Estadão (8/6), sob o título “O canhão da Lava Jato”: “Nenhum agente público da Presidência e da Vice-Presidência da República (sic) pode receber presente, hospedagem, favores e NEM TRANSPORTE POR PARTICULARES (destaque meu) interessados em receber benefícios e privilégios na Administração Pública. Porém, por uma questão de conjuntura, a eventual viagem do presidente Temer em avião particular de Joesley Batista (da JBS) possui consequências diretas para os rumos da Lava Jato no STF. (...) Caso existam indícios de que Michel Temer recebeu benefícios ilícitos enquanto era vice-presidente, mesmo assim ele não poderá ser investigado e processado por esses fatos enquanto estiver na Presidência da República. Isso porque, conforme a Constituição, o Presidente somente pode ser investigado e réu por ações tomadas em razão do cargo e durante o seu exercício. (...) Contudo, são fatos que fortalecem (sic) a investigação que já está aberta no STF em face do Presidente Temer. Provas da proximidade entre o Presidente Temer e o Joesley fragilizam (sic) a narrativa da defesa, de que Joesley era apenas um “falastrão” que se reunia com Temer quase que por acaso. (...) Se esses fatos se juntarem a eventuais outros, o PGR pode considerar que tem elementos suficientes para uma ação penal e oferecer denúncia contra o Presidente. Assim que isso ocorrer a Presidência fica em xeque, já que se houver autorização da Câmara dos Deputados e aceitação da denúncia pelo Supremo, o Presidente Temer fica automaticamente afastado do cargo por até seis meses”. Por aí se vê que a viagem da família Temer poderá lhe trazer graves consequências. Outra revelação feita pelo jornalista Mario Cesar Carvalho, em reportagem publicada pela FOLHA, complica ainda mais a situação de Temer: “A Polícia Federal encontrou documentos rasgados, com informações sobre a reforma da casa de uma filha (sic) do presidente Michel Temer, na operação de busca e apreensão que fez no apartamento do coronel da Polícia Militar João Baptista Lima Filho. (...) Ele é um dos mais antigos e fiéis aliados do presidente, suspeito de ser laranja (sic) de Temer. Um dos delatores da JBS, Ricardo Saud, diz ter mandada entregar R$ 1 milhão para Lima Filho dos R$ 15 milhões que o grupo doara para o caixa 2 de Temer em 2014”. O jornalista informa ainda: “Destruição de provas é considerada um crime GRAVE (destaque meu) pela Justiça. É uma das justificativas previstas para a decretação de prisão. Foi com esse argumento, por exemplo, que a Justiça mandou prender outro aliado de Temer, o ex-ministro Henrique Alves, na terça (6/6)”. O presidente sairá dessas graves complicações? Muito difícil. A CONFERIR!

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Tucanos em cima do muro sustentam Temer. Artigo de Jasson de Oliveira Andrade


Temer dedicou a semana tentando convencer o PSDB a não romper com o governo, onde tem vários ministros. Se os tucanos romperem será o fim do presidente. Por enquanto, o partido está dividido. Uma parte apoia Temer, outra defende o rompimento. Uma ala está em cima do muro, outra desceu do muro. Qual vai prevalecer? Até agora não se sabe!

Vinicius Torres Freire, em artigo na FOLHA, comentou: “Para sorte de Temer, o PSDB ora está meio isolado. Um relato de segunda mão diz que a conversa de Temer com FHC e Tasso Jereissati foi “diplomática”, “cortês”, mas “não muito boa”. (...) Temer chiou e acuou o PSDB. Tucanos dizem que estão indo, mas não foram, até porque o partido está, para variar, SOBRE UM MURO RACHADO (destaque meu). Está aí um problema para a estratégia de Temer”. 

O Estadão (31/5), na reportagem “Temer apela e tucanos fazem defesa do governo”, noticia: “Apesar da pressão das bases tucanas e da bancada da sigla na Câmara [ entre eles o deputado Carlos Sampaio, de Campinas ] pelo desembarque dos tucanos do governo, o apelo do presidente surtiu um resultado imediato favorável ao governo, que tenta emplacar a narrativa que o pior já passou”. Será? O presidente tenta. A reportagem do mesmo jornal, sob o título “Temer apela a Alckmin para impedir cisão do PSDB-SP”, mostra que não está fácil o apelo ser atendido, visto que o partido está rachado: “O presidente do PSDB-SP, deputado estadual Pedro Tobias, convocou prefeitos, deputados e dirigentes do partido para uma reunião ampliada da Executiva que deve deliberar sobre o tema. Ao ESTADO, Tobias disse que defende o rompimento do PSDB com Temer”.

Já o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) defende o apoio do partido ao governo Temer, do qual faz parte. O Estadão noticiou: “O ministro das Relações Exteriores, o tucano Aloysio Nunes Ferreira, evocou o clássico do escritor francês Gustave Flaubert para defender a lealdade (sic) de seu partido com o governo Michel Temer: “O PSDB não é Madame Bovary”, afirmou, em referencia à personagem do século 19 que trai o marido e tem um fim trágico”. Alberto Bombig, no texto “PSDB não é Bovary, mas sofre com seu bovarismo crônico”, escreveu: ”O PSDB pode até não ser a Madame Bovary, conforme disse o chanceler Aloysio Nunes Ferreira. Mas é inegável (sic) que o partido sofre de bovarismo, a denominação surgida a partir da personagem adúltera do escritor Gustave Flaubert (1821-1880) para definir uma certa insatisfação e um mecanismo de autoengano presentes em alguns indivíduos. Essa condição se agravou entre alguns tucanos que acreditam ser possível simplesmente romper com um governo do qual eles são hoje o principal fiador. (...) Romper com Temer sob argumentos de ÉTICA E MORALIDADE NA VIDA PÚBLICA (destaque meu), para os bovaristas, limpará da memória do eleitor as denúncias contra o PSDB”. 

Kennedy Alencar, no texto “Denúncia contra Aécio dificulta abandono de Temer pelo PSDB”, constata: “A denúncia da Procuradoria Geral da República contra o presidente licenciado do PSDB, Aécio Neves, dificultará o discurso do PSDB para desembarcar do governo Temer. Fica difícil explicar para a opinião pública o abandono de Temer quando o presidente do partido, que está licenciado do cargo, é denunciado por corrupção passiva e obstrução de Justiça. (...) Complica também o plano de setores do PSDB para eleger um tucano indiretamente via Congresso Nacional caso Temer deixe o poder antecipadamente. A crise provocada pela delação de Joesley Batista uniu os destinos do PMDB e do PSDB, para o bem e para o mal”. Kennedy conclui: “Se perder o apoio do PSDB, ficaria mais difícil para Temer se manter na Presidência”. Elio Gaspari declarou: “Apesar da indicação de que a maioria quer saltar [do governo], o tucanato caiu na armadilha do muro. Se ficar, perde eleitores. Se sair, perde banqueiros”. Será então que os tucanos vão ficar em cima do muro? Em artigo ao Estadão, Fernando Henrique Cardoso está em dúvida: “Apoiei a travessia e espero que a pinguela tenha conserto. E se não? E se as bases institucionais e morais (sic) ruírem? Então caberá dizer: até aqui cheguei. Daqui não passo. Torçamos para que não sejamos obrigados a tal”. A manchete do Estadão poderá ou não tirar a dúvida de FHC: “PF (Polícia Federal) prende Rocha Loures [o homem da mala ou o homem “bomba”!] e aumenta pressão sobre Temer”. A ver...

Para o escritor Marcelo Rubens Paiva, “errou Tiririca, palhaço eleito deputado federal em 2010, com votação recorde: “Vote no Tiririca. Pior do que tá não fica”. Ficou.”

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

.



LinkWithin

Related Posts with Thumbnails

Golpe